2.23.2004
Hey mãe...
Hey, mãe... aqui é o seu filho. Faz tempo, né? Mas depois de tudo o que houve, depois de todo aquele sangue e mel, depois daquelas palavras, e daquelas mentiras, e daquela faca... algo se perdeu. A inocência de uma relação mãe-filho, a confiança inabalável... se foram. Não posso deixar de olhar pra você e ver aquela faca, aquele coração, e todo aquele sangue espalhado... as vezes, queria que aquele sangue fosse meu. Mas ainda estamos vivos, certo? E, se estamos, talvez você possa me ouvir.
Você se lembra daquela carona que você me deu, em um certo sábado, uma semana após meu aniversário? Eu nervoso, shopping Galleria, tarde de sol? Aquilo... mudou tudo. Heh... e pensar que eu fiquei dois dias sem comer sem perceber... é, eu sinto falta daquele garoto. Bobo, ingênuo, chato, mesmo rude e implicante... e feliz. Feliz pra caralho.
Mas o que já foi, já foi, e você conhece bem essa história. Garoto e garota se apaixonam, vivem linda história de amor, têm uma filha, garoto tem medo de ser pai, garota torna-se mãe, deixa de amar garoto, passa a odiar garoto, arranja um namorado melhor, garoto se mata. A útima parte está faltando. Vamos deixar faltando até eu terminar esta carta, pelo menos.
Faz tempo que a gente não conversa, e há coisas que talvez você queira saber. Sabe, eu tenho amigos. Lembra do Claus, da Lívia, da Alice? A gente ainda se vê. Ah, sim, a turma está muito maior; você não reconheceria nem um terço deles. Depois eu fala de cada um. Bem, a gente sai quase toda semana. A gente conversa, a gente bebe, a gente se envolve em complicadas teias de amor e luxúria. Felizmente, no meu caso, lúxuria e afeição, pura e simplesmente. Ah, sim, eu voltei a fumar; desculpe. Eu preciso controlar meus tremores de alguma maneira, e eu simplesmente não tenho mais a solução que tinha antes. Eu sei que você vai entender.
Eu desisti, mãe. Eu desisti dela. Ela me odeia, e com razão; não é como se ela pudesse voltar a gostar de mim. Acredite, eu tentei. Eu tentei me tornar um homem melhor, tentei crescer. Mas... eu já desperdicei a única chance que tinha, então, que há pra fazer? Seguir em frente, tentar esquecer, chorar sozinho, certo? E nunca mais voltar a amar uma mulher. Não, nem um homem. Uma vez já foi experiência pra uma vida toda, creio. A partir de agora, nada de amor pra este incauto jovem, ah não! A partir de de agora, amizade e desejo, luxúria e afeição, sexo. E só. Deve ser o bastante.
Bem, fora isso, as coisas estão... quietas. Ainda não arranjei um emprego. Ainda não transferi a faculdade, mas vou fazer isso segunda ou terça. Ainda não consertei o carro. Hm, preciso cortar o cabelo também, e ligar pra algumas pessoas... mas eu sempre esqueço. Tenho que organizar umas coisas no meu computador, tenho que acabar de escrever as histórias que começo, tenho que pedir desculpas... à gente demais. Mas isso é pra depois. Agora, eu tenho que acabar essa carta.
Pronto, acabei.
Assim disse Kat as 21:21.
Fala ae!
Nada dito neste site e verdade.